A vida corria como num sonho 1
Acordei às seis e quinze de uma quarta-feira de setembro. Dei um beijo
no meu marido que, todo aberto na cama, ainda dormia. Olhei para o meio de
suas pernas e vi uma elevação que me causou uma sensação
muito agradável. Ajoelhei-me ao lado da cama, palmeei aquele músculo
carnudo e enchi a boca, como se saboreasse um sorvete de morango.
João se mexeu, mas, talvez fingindo que nada acontecia, manteve-se “dormindo”.
Parei como comecei. Levantei, fui em seu ouvido e sussurrei: “me aguarde,
macho, volto já para te devorar”.
Troquei a roupa de dormir por uma de ginástica e voei para a academia,
para uma hora de pura malhação.
Preparei todos os músculos, inclusive os que fazem constrição.
Quando retornei, não encontrei João. Havia um bilhete dizendo: “Lia,
meu amor, o chefe ligou. Estamos com problemas na firma. O dia será longo
e duro. Aliás, duro como hoje cedo. É muito duro ver a coisa
dura amolecer sozinha. Me aguarde, bela fêmea, volto tarde para te saborear.
O troco será meu. Te amo. JP.”
Tomei um bom banho, arrumei-me e fui trabalhar.
O dia estava lindo, temperatura agradável e até o trânsito
corria fácil.
Sentia-me muito feliz. Até a hora do almoço, por duas vezes senti
uma coisinha muito boa no pé da barriga e no genital. Com certeza era
tesão.
Durante o almoço comentei com uma amiga de trabalho como foi meu despertar.
Rimos à vontade. Ela relatou que sempre quis fazer aquilo, mas nada
de parar. Sonha ir até o final. Usar, usar, usar, provar, provar, provar,
deixar a coisa toda derretida, não falar uma só palavra e depois
sair para a labuta.
Durante todo o almoço me senti como uma salada temperada com um bom
molho italiano. Se fosse francês, não ficaria chateada, tampouco
se fosse um apimentado molho afro-baiano. Com certeza todos seriam picantes.
Literalmente.
Naquele dia, depois do almoço, não voltei para o trabalho. Fui
a um shopping fazer hora, comprar calcinhas e soutiens que estavam em tempo
de serem renovados. Tinha hora marcada com minha ginecologista que sempre me
cobra um preventivo a cada seis meses. Sua cartinha-aviso já tinha chegado
há mais de um mês. Estava devendo a consulta, e dever é algo
que me incomoda.
A consulta transcorreu como de hábito. Bem ligeira.
–
Como está? Tudo bem?
– Tudo bem.
–
Quando foi a última menstruação? Tá com corrimento?
–
Há dez dias. Às vezes fica uma coisinha na calcinha. Mês
passado senti uma coceirinha por fora. Mas passou.
– Ok. Vamos ao exame.
O exame foi simples e rápido.
–
Tudo ótimo. Assine aqui e também aqui. Como você falou
do corrimento e do prurido vulvovaginal, aplique essa pomada toda noite e não
tenha relação durante o tratamento.
– Estou com alguma coisa, doutora?
–
Não. Não. Nada de mais. Mas é bom usar essa medicação,
pois trata tudo na vagina. Volte em duas semanas. O resultado do preventivo
estará aqui, pronto. Certo?
– Certo.
– Tchau.
– Tchau.
Não sei porque, mas saí do consultório meio apertada.
Percebi que durante todo o percurso do elevador fiquei olhando para baixo.
Cheguei cedo em casa. Antes, porém, comprei a pomada Politetravagi (MFA)
que a doutora Suzyièe havia receitado.
Telefonei para o escritório do João. Não estava. Liguei
para o celular. Deu fora de área ou desligado. Não deixei recado.
Não havia motivo importante para isso.
Após mais de uma hora imersa numa água bem quentinha, percebi
que todo aquele tempo fiquei estática, ora olhando para o teto, ora
mirando uma mata que pelo basculante dá para ver.
Saí dali, coloquei um roupão, aprontei a mesa e voltei ao quarto
para esperar João.
Com toda certeza, aquele início de noite passava-me sensações
bem diferentes das do início do dia.
Decidi não colocar pomada vaginal, pois esperava João para jantar.
Telefonei mais uma vez para o seu celular, e este, novamente, não estava
alcançável.
Estava achando tudo estranho. Mas mantive a decisão de não colocar
a pomada e não comer sozinha. Continuava aguardando meu marido.
Com a televisão ligada, adormeci no “Fundo da Caneca” do
Jô.
Estava sem calcinha, sem pomada, sem comer e sem meu homem.
(MFA)Marca Fantasia
do Autor